A decisão do Federal Reserve (Fed) desta quarta-feira (18/3), de manter a taxa de juros nos EUA na faixa de 3,50% a 3,75%, já era amplamente esperada pelo mercado. Mais importante do que a decisão em si, no entanto, foram os comentários do presidente do Fed, Jerome Powell, e a atualização de projeções dos membros da autoridade monetária. Para o investidor brasileiro, o impacto pode ser relevante.
Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, as surpresas vieram especialmente do chamado dot plot, um gráfico publicado pelo Fed que mostra, ponto a ponto, onde cada dirigente do banco central espera que a taxa de juros esteja nos próximos anos.
“As projeções medianas dos membros do FOMC mostraram uma mudança de postura importante”, afirma. “Os membros já enxergam condições para iniciar cortes antes do que sinalizavam em dezembro. A projeção para o fim de 2026 (primeiro ano) recuou de 3,4% para 3,1%, o que implica dois cortes de 0,25 p.p. até dezembro, ante apenas um na projeção anterior”, completa.
Para Trevisan, isso tem três consequências imediatas para o Brasil:
1. Alívio para o câmbio
“Se o Fed sinaliza mais cortes, o diferencial de juros EUA-Brasil fica mais confortável para o Banco Central brasileiro conduzir a flexibilização da Selic sem medo de fuga de capitais”, afirma Trevisan. Isso reduz a pressão sobre o dólar.
2. Mais espaço para o Copom cortar juros
Com o Fed indicando flexibilização futura, o Banco Central brasileiro ganha segurança para avançar no ciclo de cortes. “O comunicado do Fed facilita a vida do BC brasileiro e permite ao Copom iniciar o ciclo de flexibilização (seja de 0,25 p.p. ou 0,50 p.p.) com mais conforto”, diz Trevisan.
3. Ambiente mais favorável para renda fixa e ações no Brasil
Na avaliação de Trevisan, a sinalização do Fed é positiva para a renda fixa e renda variável no Brasil. “Títulos IPCA+ e prefixados de duration intermediária se beneficiam de um cenário global de juros em queda. Na bolsa, setores sensíveis ao custo de capital (utilities, construtoras, bancos) ganham fôlego com a perspectiva de flexibilização simultânea aqui e nos EUA”, afirma.
O risco que permanece é o petróleo. Se a guerra no Irã se prolongar e o Estreito de Ormuz continuar parcialmente bloqueado, os preços de energia podem contaminar as expectativas inflacionárias tanto nos EUA quanto no Brasil, forçando ambos os bancos centrais a pisar no freio. O Fed deixou isso implícito no comunicado. O investidor precisa monitorar o barril de petróleo como a variável mais importante das próximas semanas.
O impacto da guerra no Irã nos juros
Pela primeira vez, o FOMC incorporou oficialmente os efeitos da guerra no Irã em suas projeções. O petróleo Brent, que opera nesta quarta-feira acima de US$ 100 o barril, já reflete o fechamento parcial do Estreito de Ormuz e pode impulsionar a inflação global.
“Os preços de energia já estão repercutindo: a gasolina nos EUA subiu, os custos de transporte subiram, e o risco é de que isso contamine a inflação de serviços e alimentos nas próximas leituras do CPI e do PCE”, diz Trevisan.
Assim, o risco mais claro no cenário à frente é sobre os preços da commodity. “Se a guerra no Irã se prolongar e o Estreito de Ormuz continuar parcialmente bloqueado, os preços de energia podem contaminar as expectativas inflacionárias tanto nos EUA quanto no Brasil, forçando ambos os bancos centrais a pisar no freio. O Fed deixou isso implícito no comunicado. O investidor precisa monitorar o barril de petróleo como a variável mais importante das próximas semanas”, conclui Trevisan.