O otimismo tomou conta dos ativos brasileiros e do câmbio nas últimas semanas. O bom humor veio em meio a uma sensação de melhora da economia – com um PIB acima do esperado no 1º trimestre – e de uma inflação que em 12 meses conseguiu se sustentar abaixo do teto da meta perseguida pelo Banco Central.
Em meio a melhora das expectativas, que também teve a contribuição do arcabouço fiscal, o mercado tem precificado um início de afrouxamento da política monetária que pode acontecer a partir de agosto.
Em entrevista ao B3 Bora Investir, o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, explicou que a dinâmica dos preços “não é tão benigna”. Para o analista, nos últimos ciclos de queda dos juros as expectativas de inflação de longo prazo já estavam próximas da meta.
Se mesmo com essas perspectivas o BC optar por baixar a Selic, o especialista aposta em investidores ainda mais confiantes, uma bolsa no azul e o Real valorizado. Para pavimentar esse caminho, a Reforma Tributária será um bom asfalto para evitar buracos na confiança do país.
Diante de um cenário econômico com tantas variáveis, as dicas são “definir os objetivos” e “acompanhar a conjuntura para fazer as melhores escolhas”. Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Bora Investir: O cenário inflacionário tem apontado para uma desaceleração. No mês passado já tivemos um IPCA mais lento – com núcleos menos pressionados. O que está por traz dessa perda de ritmo?
Étore: Essa desaceleração já era prevista pelo Banco Central e pelos agentes econômicos. Ela foi comunicada desde o início do ano, quando a gente falava a respeito de deflação que se observou no terceiro trimestre de 2022 quando o governo Bolsonaro tirou alguns impostos. No acumulado de 12 meses isso acabou gerando desaceleração exatamente para o segundo trimestre do ano subsequente de 2023. Portanto uma parte relevante disso é oriunda disso.
Temos também que adicionar a parte de alimentação com um processo gigantesco de desinflação de commodities alimentares e isso contribuiu sobremaneira para esse alívio inflacionário. Teve também o petróleo, que acabou corroborando para uma política de reajustes baixista dos preços de gasolina.
Evidente que eu poderia destacar a restrição monetária [aumento dos juros] promovida pela autoridade, mas estaria adicionando um fator que não prepondera frente a esses outros que eu citei.
Bora Investir: A partir de agora – no fim desse segundo trimestre – como deve se comportar a inflação?
Étore: Nos próximos meses, a gente deve assistir uma retomada da alta, visto que as inflações observadas em junho, julho, agosto e setembro de 2022 vão sair da base móvel.
Ou seja, por menor que sejam essas taxas – 0,20%, 0,30% para esse trimestre – nós teremos uma alta do acumulado em 12 meses. A gente espera que o IPCA finalize 2023 em 5,2%, muito distante da meta de 3,25%. Para o ano que vem, não esperamos um alívio. Nós temos 3,7% de alta para o IPCA em 2024 – 0,70 ponto percentual acima da meta.
Esse comportamento estruturalmente mais elevado denota que a dinâmica dos preços não é tão benigna quanto se pode imaginar. Uma parte relevante disso se dá em função das expectativas – seja por conta do regime de metas, do fiscal, da indicação de novos diretores do Banco Central que têm mais leniência no combate inflacionário, mas que acaba não gerando a convergência necessária para as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional.
Bora Investir: Apesar dessa expectativa de retomada da inflação, o mercado tem precificado uma queda nos juros a partir de agosto ou setembro. Qual a sua estimativa?
Étore: Todos os últimos ciclos baixistas de juros tinham ancoradas as expectativas de inflação além do horizonte relevante, ou seja, a inflação estava próxima da meta. Por isso eu divirjo um pouco sobre essa necessidade de afrouxamento monetário em agosto.
Acho que a gente precisa avaliar muito bem as condições que estão postas na mesa. Isso exige uma observação do comportamento da economia.
Hoje nós estamos vivendo um processo de expansão fiscal. O Aloizio Mercadante [presidente do BNDES] disse que banco pretende dobrar a sua participação na economia nos próximos quatro anos. Então é uma elevação do juro neutro [que não gera inflação e nem desinflação] que a gente está se referindo e isso acaba reduzindo a potência da política monetária, principalmente se essa inserção do parafiscal [medidas para fomentar o crédito] vier mediante a taxas subsidiadas.
Bora Investir: Em relação ao fiscal, o arcabouço passou pela Câmara e agora está no Senado. Diante da eminência de aprovação, podemos falar numa dissipação do tão falado risco fiscal?
Étore: Há uma grande dificuldade de que se cumpram os objetivos do arcabouço fiscal já em 2024. Então, mesmo sendo aprovado, seria necessária uma fonte de arrecadação extraordinária para que sejam cumpridas algumas atribuições definidas.
Os gastos vão ocorrer independentemente do avanço da receita. Portanto é necessária mais receita para a conta fechar. Há uma extrema dificuldade de se enxergar isso, o que acaba não reduzindo o endividamento da nação, a ponto de influenciar a avaliação sobre a capacidade de solvência do país como um todo.
Bora Investir: A economia brasileira surpreendeu positivamente no primeiro trimestre. Soma-se a isso inflação mais baixa e o desemprego alto, mas estagnado em 8,8%. Essa conjuntura animou os investidores e a bolsa do país tem tido ótimos desempenhos. Esse bom momento veio para ficar?
Étore: A bolsa brasileira vai muito bem e temos avaliado que esse momento deve continuar, principalmente se o Banco Central acabar por afrouxar a restrição de política monetária. Existe lá no futuro, em função da questão fiscal, alguns receios, mas que não deixam de apontar para apostas positivas com relação ao Ibovespa.
É claro que quanto mais desafiador for o ambiente, mais cautelosa tem que ser a escolha. Mais discernimento os agentes têm que possuir na escolha dos seus investimentos em ações. Boas oportunidades não faltarão, portanto temos um cenário bem construtivo para a bolsa.
Bora Investir: Diante da queda dos juros, esse bom momento seria puxado mais por ações
ligadas mais a economia local – como varejo, por exemplo?
Étore: Exato. Empresas mais ligadas ao crédito, cuja receita tem uma associação aos compradores utilizando crédito. Aliviaria bastante uma situação das varejistas, como você pontuou.
Outro exemplo é o setor imobiliário – que segue pressionado – mas uma queda na taxa de juros acabaria aliviando. Ou seja, acabaria gerando um impulso sobremaneira por esse canal de crédito que ficaria mais aliviado.
Bora Investir: Diante desse quadro econômico complexo, o que os investidores precisam levar em conta na hora de escolher os seus investimentos?
Étore: É importante sempre definir os seus objetivos, aonde se quer chegar. A gente brinca que para quem não sabe para onde está indo, qualquer ônibus serve, inclusive nenhum.
Para isso é preciso conhecer o seu perfil de investidor e o quão avesso você é ao risco. Mediante a todos esses conhecimentos, a aplicação da leitura sobre a conjuntura e o acompanhamento corriqueiro é fundamental para fazer as melhores escolhas.
Às vezes, um investimento que para mim é muito evidente para você não é. Portanto é preciso diferenciar o momento de cada pessoa. Então é fundamental se conhecer, traçar objetivos para definir a melhor alocação possível e, evidentemente, sempre mensurar o risco no qual está se tomando e não subestimá-lo.
Bora Investir: Dentro desse quadro temos o Real se valorizado perante o Dólar. Qual a sua expectativa para o câmbio?
Étore: Para a moeda temos uma perspectiva muito similar a bolsa. O momento é bom para o Brasil. Existe uma visão construtiva para com a nação de curto prazo, no qual o fiscal ainda não cobra sua conta, não temos restrições sobremaneira e a inflação está em processo de alívio.
No longo prazo, no entanto, essa avaliação não é tão construtiva assim. Existem desafios que a gente já pontuou a respeito do fiscal, do juro neutro, do parafiscal. Tudo isso deve cobrar a conta em algum momento e na hora que ele chegar podemos ter um revés nos preços dos ativos.
Bora Investir: Você falou de visão mais construtiva de nação. A Reforma Tributária entra nessa perspectiva?
Étore: Sim. Entretanto há uma dificuldade de enxergar se a reforma tributária como está terá facilidade de ser aprovada. Principalmente quando forem definidas as alíquotas, ou seja, quanto cada setor será impactado.
Além disso, novas questões podem ser colocadas e novos arranjos tributários podem ser adicionados a uma reforma que simplifica, melhora, mas que está distante daquele IVA único [imposto sobre Valor Agregado que reúne cinco tributos]. Já temos diversas exceções de setores no texto. Claro que é melhor do que o sistema atual que é uma colcha de retalhos tributária.
A reforma, portanto, vai melhorar a produtividade da nação, mas precisamos aguardar para ver como ela vai sair do Congresso.
Bora Investir: Pelo lado internacional, seguimos com inflação elevada – mesmo que desacelerando nos Estados Unidos e na Europa – e juros em patamares altos. Como esse cenário impacta o Brasil?
Étore: O Brasil, a princípio, vai gozar junto com outros emergentes do enfraquecimento da moeda americana. Uma perspectiva de recessão nos Estados Unidos torna o dólar menos atraente.
Em relação aos juros, eles devem permanecer por um tempo suficientemente prolongado até que haja a plena convergência da inflação para a meta. Apesar da interrupção temporária nos Estados Unidos, o aperto monetário é algo que será retomado já na reunião de julho.