Para Vera Rita de Mello Ferreira, o perfil de investidor não se resume a conservador, moderado e avançado. Ela acredita que essas características podem ser divididas, na verdade, em dois eixos. “Existem os investidores que conseguem esperar e os que não conseguem; os que conseguem perder e os que não conseguem. Ninguém é exclusivamente racional, mas, sim, predominantemente irracional: há nuances no meio”.
É por isso que conhecer as próprias emoções pode ajudar a investir melhor, aponta a especialista em psicologia econômica, na reedição de seu livro “A Cabeça do Investidor”. O livro original havia sido lançado em 2011.
Vera Rita de Mello Ferreira é doutora em psicologia social pela PUC-SP, com tese em psicologia econômica e presidente da International Association for Research in Economic Psychology (Iarep), que representa no Brasil desde 2004. Também é professora no Instituto de Psicologia Econômica e Ciências Comportamentais (Vértice Psi), autora dos primeiros livros sobre o tema no país e proprietária do canal Pílulas de Psicologia Econômica, no YouTube. Veja abaixo a entrevista completa ao Bora Investir:
Bora Investir – Como sintetiza os ensinamentos do seu livro para o investidor pessoa física? Você destaca a linguagem simples, e que buscou ajudar qualquer leigo a investir melhor.
Eu tento ajudar as pessoas a conhecerem um pouco melhor erros que são repetidos. Algumas cometem os mesmos erros nas mesmas circunstâncias. Então, falo um pouco sobre esses erros constantes e dou exemplos. São dicas úteis na hora de tomar decisões sobre dinheiro e, especialmente, investimentos.
Bora Investir – O que explica a instabilidade do investidor brasileiro, que a cada momento corre para abraçar um novo investimento?
É o comportamento de manada. Sabemos que, na hora que todo mundo vai para um investimento, provavelmente o cenário para ele já está prestes a mudar. Os verdadeiros experts criam a tendência e a exploram no início. Quando todos querem entrar, eles podem vender suas posições e negociam em melhores condições. Quando todo mundo entrou no barco, ele tende a virar.
Isso pode acontecer com qualquer investimento. Hoje ainda temos os potencializadores da tendência, que são os influenciadores e as notícias online. Ambos podem inflar, de forma artificial, determinados produtos financeiros. Por isso o investidor deve sempre buscar um profissional isento e de confiança como forma de tomar as melhores decisões.
Bora Investir – Por que é importante conhecer a arquitetura da escolha? De quais maneiras alertas, lembretes e até inspirações podem ser usados a nosso favor?
A arquitetura de escolha é uma aplicação das ciências comportamentais. Ela diz respeito a um desenho do contexto. Originalmente a ideia é que seja usada em políticas públicas. Contudo, muitas também servem para investidores.
Nossos erros sistemáticos, tendências e vieses de fragmentar informações, não olhar para o todo e não enxergar alguns aspectos podem ser usados para nos beneficiar. Basta usar ferramentas, como lembretes, alertas e simplificações.
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Um exemplo é uma aplicação automática sem prazo, que todo mês desconta um valor da nossa renda que entra e vai direto para a aplicação. Nossa tendência à inércia nos leva a não mexer nessa poupança. Se for um bom investimento ainda por cima, ótimo. Se for inicialmente algo apenas para conseguirmos poupar, tudo bem também. O importante é se acostumar com esse processo.
Outro exemplo é a contabilidade mental, uma maneira compartimentalizada de lidar com dinheiro que faz com que a gente se atrapalhe ao pagar prestações, pois não nos damos conta do total. Isso pode ser usado a nosso favor caso a gente segmente o dinheiro em contas diferentes. Podem ser contas de investimento: uma para gastos de emergência, outra para um objetivo e outra para o longo prazo. Dessa forma, fazemos a contabilidade mental jogar a nosso favor.
Bora Investir – Por que as pessoas não querem sair da poupança e dos grandes bancos? Isso é explicado pelo viés de confirmação, a história de que poupamos energia para a nossa sobrevivência, e também pela aversão a perdas?
Tem ainda o viés de familiaridade e a inércia: tendemos a ficar onde estamos, e preferimos o que já conhecemos. Temos dificuldade de entrar em contato com alguma coisa nova e diferente.
Estamos sempre poupando energia, especialmente com tantas demandas pela vida. E aí os investimentos vão ficando na prioridade 120. Deixamos de lado, mesmo que isso possa representar uma perda. Temos aversão a perda, e precisamos nos dar conta disso.
Bora Investir – O comportamento precisa ser compreendido para investir melhor?
O objetivo é se conhecer melhor para buscar aplicações que dialoguem com sua maneira de ser. Quem é impaciente e tentar fazer um investimento com prazo de 10 anos, que tenha perdas pesadas se sair antes, está fadado ao fracasso. Melhor começar com seis meses e ir aos poucos.
É fundamental se autoconhecer, mas não é tudo. Precisa também conhecer o mercado financeiro e seus produtos. São coisas que nem todo mundo tem disposição.
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No meu livro você não irá encontrar recomendações de investimentos: não tenho competência para isso. Mas temos muitos profissionais isentos e competentes que podem ajudar muito. Se esse profissional saber sobre finanças comportamentais ainda por cima, ficará atento aos seus próprios vieses para não interferir nos dos seus clientes.
Bora Investir – Você cita que efeito posse é problema, mas caso seja reformulado vira aliado. De que forma?
Quando você acumula patrimônio você tende a se apegar a ele. Pode tender a mexer menos porque não quer vê-lo reduzido. À medida que começa a conseguir guardar, pega gosto ao ver que aumentou.
Como no Brasil a Selic é excepcionalmente alta, você consegue ver o patrimônio aumentar quase diariamente. Se apegar a isso ajuda no caminho de poupar. Precisa apenas começar.
Bora Investir – Você aponta que a arma secreta da arquitetura de escolha, para retirar os vieses, é tornar tudo automático. Nada mais eficaz do que separar o dinheiro para investimentos antes de gastar tudo, e não quando sobra?
Para quem é disciplinado e organizado não precisa disso: faz espontaneamente. Outras pessoas se tornam mais organizadas e não precisam também. Mas, para a maioria dos mortais, é um super jogo.
Não tem essa de o que sobrar, guarda: você tem de receber já com valor descontado, seja salário ou rendimento como autônomo. No futuro você vai se agradecer por isso.
Bora Investir – Você é contra produto financeiro para crianças? Explique a sua posição
Não. Sou contra tentar enfiar goela abaixo da criança assunto que para ela não faz sentido. É meio parecido com a educação sexual: é conforme vai perguntando. Não faz sentido explicar para quem tem quatro anos como uma debênture funciona. Mas se ficar interessada, explica. A criança que hoje tem seis anos e tem aplicações financeiras, quando fizer 20 vai saber o que tem. Tem até um risco grande de ficar obsoleto explicar o produto em si.
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Sempre prefiro partir do eixo da sustentabilidade no sentido mais amplo. A sustentabilidade do plano, da pessoas e suas finanças: buscar o bem-estar financeiro e nos próximos momentos, até, preferencialmente, morrer. Podemos mostrar que dinheiro é finito, que precisa cuidar das coisas para elas desenvolverem. Tudo ajuda a preparar terreno para aprender sobre os produtos no futuro.
Com crianças de dois anos é melhor passar noções de responsabilidade, limites e consequências.
Bora Investir – Como evitar a autoconfiança exagerada ao investir?
É complicado, porque em geral a pessoa nem sabe que sofre desse problema: ela se acha o máximo. Mas exemplos podem ajudar: o Tom Brady perdeu 50 milhões de dólares em criptomoedas: talvez tenha sido fruto de confiança exagerada. Sou ótimo esportista, então não vou errar na escolha do criptoativo.
Se for uma pessoa inteligente e com capacidade emocional para ter insight, pode começar a perceber sozinha. Tem de se perguntar: eu acho que vou abafar, mas por que?
Por isso que é sempre bom o olhar externo do profissional: ele pode te pegar no pulo na hora que você está cego pela autoconfiança gerada. É sempre melhor alguém ajudar.