Dívida, no Brasil, é uma questão social, diz Dina Prates marilia.almeida

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Não é incomum que um banco libere limite no cartão de crédito, cheque especial e também no crédito pessoal pré-aprovado, mesmo que o cliente possa ser considerado superendividado. Como resultado, é fácil entrar em desespero e cair na cilada momentânea do crédito rápido e fácil. Mas toda solução momentânea tem grande chance de virar uma bola de neve, diz a educadora financeira Dina Prates, sócia-fundadora do Espaço IEP.

“O consumo desenfreado, junto com a falta de conhecimento sobre si mesmo e a disponibilidade de crédito infinita, é uma bomba para impedir a organização da vida financeira”, diz, em entrevista ao Bora Investir.

Dina Prates é formada em administração e mestre em sociologia. No Espaço Interdisciplinar Estrela Preta (IEP), busca unir finanças com psicologia, de forma a mudar comportamentos e impedir que o orçamento seja afetado por ciclos viciosos causados por vieses comportamentais. “Quanta gente compra e não sabe por que? Muitos dizem que terapia é cara, mas não considera o prejuízo de sair para consumir sem cuidar da saúde mental”.

Veja abaixo a entrevista completa dada por Dina Prates ao Bora Investir:

Bora Investir – Qual foi seu maior perrengue financeiro e como a educação financeira ajudou a sair dele? Você diz que com 10 anos já tinha preocupações financeiras

Dina Prates – Sou uma educadora financeira e fala muito sobre como organizo a minha vida e visualizo objetivos., Mas antes fui filha da Dona Rosa, uma mulher negra que criou três meninas no Rio Grande do Sul. Sempre tivemos acesso ao mínimo, como alimentação e escola pública. Contudo, não tínhamos lazer, e sempre me questionei muito sobre isso.

Não tínhamos como fazer extravagâncias, pois era preciso economizar o pouco que se tinha. Como consequência, me tornei empreendedora desde os 9 anos. Comecei a vender trufas para ter renda extra e pagar os passeios do colégio.

Resolvi também investir em educação e estudo. Foi uma forma de colher frutos. Afinal, a educação, se pensarmos no contexto social dos negros no Brasil e no racismo, é a única coisa que não podem nos tirar. Então, no primeiro ano do ensino médio fui estudar em uma escola distante do meu bairro. Era uma escola pública, mas com mais estrutura.

Para economizar nos custos com transporte, minha mãe ia a pé até o trabalho dela e voltávamos a pé para casa. Isso me incomodava muito, não conseguir fazer coisas básicas às vezes, Queria trabalhar desde muito cedo, mas minha mãe só me deixou no segundo ano do ensino médio, quando me tornei jovem aprendiz e meu salário era dedicado a pagar um curso de inglês.

Bora Investir – Você diz que ama viajar e que considera a experiência um investimento. O que costuma fazer para tornar esse momento econômico?

Dina Prates – Investir em lazer é investir na sua qualidade de vida. Precisamos ter esse momento de respiro, tranquilidade, descanso e que permita curtir momentos com a família. Mas não é necessário extrapolar o orçamento para fazer isso.

Não indico cortar, mas apenas reduzir esses gastos. Apenas o exercício de reduzir ´permite que a pessoa se comprometa a ter uma mudança de comportamento. Não adianta cortar o cafezinho, por exemplo. A pessoa corta até que um dia sente que merece tomar um e compro um cappuccino, que custa o preço de café para a semana toda.

Há uma sensação de que só podemos experimentar algo novo quando superamos todos os limites. Somos impulsivos, como se o mundo fosse acabar amanhã e não houvesse tempo para realizar outras viagens. Prefiro desmembrar esses objetivos ao longo do tempo. Hoje vou no parque, mas em três meses consigo fazer uma viagem um pouco maior.

Gosto de falar sobre planejamento de viagens e recomendo pensar em três destinos: um mais barato ou um passeio diferente, outro que demanda mais tempo e uma viagem intermediária.

Tem apenas R$ 50 para lazer? Por que não olhar o que tem de novo na cidade? Algo turístico, que é possível comprar com cupom, em site de compra coletiva. Tem R$ 15? Vai fazer um piquenique no parque da sua cidade. É possível ter lazer com pouco.

Tem amigos que dizem que precisam ir para a praia. Eu falo: por que não ir no parque aquático mais próximo, que tem desconto em sites de cupons? A resposta que tenho é de que não é a mesma coisa. Então questiono: você quer curtir uma experiência de lazer ou mostrar para outras pessoas que está naquele lugar?

Recentemente planejei uma viagem com amigos para Gramado e estipulei que não iria gastar mais do que R$ 150, incluindo gasolina, pedágio. Comprei tudo com cupons, exceto o estacionamento e a bebida durante o almoço, que não estava incluída.

Bora Investir – Quais são as maiores ciladas quando falamos de dívidas?

Dina Prates – O problema do Brasil não é o acesso ao crédito, mas a qualidade desse acesso. Muita gente tem muito limite no cheque especial, e no desespero caímos nesta cilada, pois queremos resolver o problema com rapidez. Alguém atrasa o pagamento do cartão e opta pelo CDC (Crédito Direto ao Consumidor) que já está ali disponível. Mas permaneço utilizando o cartão de crédito. Aí, no final do mês, tem de pagar a parcela do CDC e também a fatura.

Muita gente fica com vergonha de pedir empréstimos mais baratos. Mas uma construtora, por exemplo, vive tomando dinheiro do banco para financiar suas obras. Por que alguém acha que não tem direito, e que pode resolver a situação da noite para o dia? Mostro que geralmente meus clientes já estão pegando empréstimos. O PIX parcelado, o cheque especial, são modalidades de empréstimos, assim como o CDC. A questão é conversar com o gerente, por telefone, para buscar uma dívida mais em conta.

Bora Investir – Como começar a quebrar o tabu e falar de dinheiro?

Dina Prates – Dinheiro tem de ser assunto do almoço de domingo. Nesse momento falamos de tudo: fofoca, novela e os acontecimentos da semana. Mas quem chega e fala: estou endividado, ou estou passando por perrengue financeiro?

Entre casais, e filhos, precisamos aprender a falar que isso é possível e isso não é, verbalizar limites e possibilidades de fazer coisas mais econômicas no lugar. Se empresto dinheiro, preciso perguntar quando a pessoa conseguirá me devolver. Senão, construímos um imaginário de que podemos tudo. Mas o fato é que não sabemos qual é o orçamento do outro.

Bora Investir – Como acompanhar as finanças de forma organizada? Você indica um planner semanal

Dina Prates – Chamo de date financeiro o encontro com as finanças, o ato de sentar e olhar para a conta bancária bancária e a fatura do cartão de crédito. Semanalmente, pode ser durante cinco minutos, você visualiza o que gastou e o saldo, e quanto ainda terá até o final do mês. Precisa ser um dia tranquilo, para não ter a desculpa de deixar para o outro dia.

Essa situação traz muitos desconfortos. Por que então não colocar uma música, preparar um café? Orçamento não é só anotar tudo, mas planejar o dinheiro para as próximas semanas. Saber quanto tenho disponível, o que dá para fazer com isso. Quais são as prioridades e limites.

Bora Investir – Como renegociar dívidas?

Dina Prates – Indico levantar todas as dívidas, com valor, tipo, quanto de juros está pagando em cada uma delas e por que entrou nelas. Dessa forma, se o banco oferecer uma renegociação que não é tão vantajosa, você tem condições de verificar se ela traz prejuízo. Senão, como queremos sempre resolver de forma imediata, acabamos aceitando.

Renegociação de dívida exige tranquilidade. Se o banco faz uma proposta, você pode não aceitar. Primeiro, precisa olhar o orçamento. Muita gente faz negociações fora da realidade porque não consegue verbalizar isso para o gerente.

É possível portar a dívida para outro banco. Mas se você tirar a dívida do banco A e levar para o banco B, quanto fica a parcela e o novo prazo? O banco pode colocar condições de que para ter acesso a uma dívida mais barata você precisa contratar seus serviços. Mas isso não é portabilidade de dívida. Foge que é cilada.

O banco credor não deu outra opção? Busque uma defensoria pública e outros órgãos, lembrando que existe a lei do superendividamento.

Bora Investir – Educação financeira deveria ser política pública?

Dina Prates – As escolas estão abrindo diálogo para inserir a educação financeira, mas não formamos professores para ensinar a matéria.

Acredito que a educação financeira deveria estar até dentro do SUS, porque sabemos que a saúde financeira reflete em nossa saúde física e mental. O posto pode atender idosos com pressão alta e não sabe que a origem do problema é financeira. Então, faz uma roda de conversa sobre isso no posto.

O programa Desenrola é importante, mas precisa ensinar as pessoas de que tirar o nome delas do Serasa não fará a dívida desaparecer. Vi muita gente repercutindo que dívidas de até R$ 100 seriam quitadas pelo governo.

Empreendedores não precisam apenas de acesso ao crédito, mas aprender a utilizá-lo de forma adequada.

Bora Investir – O que as pessoas precisam saber sobre investir?

Dina Prates – Você precisa começar a investir pensando também em sua qualidade de vida. Precisamos investir no nosso futuro, começando pela reserva de emergência, que dá segurança e tranquilidade que teremos recursos, caso seja necessário. Depois, com o tempo, você vai começando a pensar em reservas para outros objetivos, como comprar casa e viagem.

Muita gente acredita que precisa ter R$ 1 mil para começar a investir. Não precisa. É possível pegar R$ 10 e começar a criar o hábito de se comprometer a guardar, Dessa forma, é possível ver o dinheiro trabalhando por você.

Ao invés de pagar juros de empréstimos, imagina receber juros de rendimentos, ver o dinheiro crescendo? Muita gente atrasa a conta e tem de pagar R$ 5 reais a mais. Imagina receber R$ 5 a mais?

Indico começar pela renda fixa, aplicações com cobertura do FGC, que se o banco quebrar você vai ter o dinheiro de volta. Guarda dinheiro todo mês com transferência automática para a conta da corretora, para não ter desculpa.

  

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