O cenário de juros elevados, o endividamento das famílias na casa dos 50% da renda e a inadimplência em patamar recorde, tem levado milhões de brasileiros a retirar recursos da poupança para conseguir fechar o orçamento.
Em julho, os saques de recursos das cadernetas superaram os depósitos em R$ 3,58 bilhões, segundo divulgou o Banco Central nesta segunda-feira, 07/08.
Depósitos: R$ 326,6 bilhões,
Retiradas: R$ 330,2 bilhões.
A retirada de dinheiro de uma das mais populares modalidades de investimento, aconteceu após a entrada de R$ 2,6 bilhões no mês passado. Esse foi o único resultado positivo no ano (acompanhe no gráfico abaixo).
Em maio, a captação líquida (entradas menos saídas) registrou um resultado negativo de R$ 11,7 bilhões, a maior para o mês desde o início da série histórica, em 1995.
POUPANÇA – CAPTAÇÃO LÍQUIDA (Depósitos – Retiradas)
Fonte: Banco Central
Acumulado do ano tem retirada recorde
Nos sete primeiros meses de 2023, os saques da caderneta de poupança superaram os depósitos em R$ 70,21 bilhões. É o maior valor já registrado para uma saída de recursos nesse período em quase três décadas.
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Impacto do cenário econômico
Na semana passada, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 13,25% ao ano. No entanto, o cenário de juros elevados persiste, o que coincide com essa retirada de recursos da poupança.
Os juros altos refletem nas taxas cobradas pelos bancos – tanto de empréstimos quanto do rotativo do cartão de crédito, cheque especial, etc.
Isso se soma ao endividamento das famílias, que atingiu 48,8% da renda acumulada nos doze meses até maio, segundo o Banco Central.
O economista e professor da Faculdade do Comércio (FAC-SP), Denis Medina, afirma que a inflação ainda em patamares elevados também ajuda a explicar o recorde nos saques da poupança.
“Desde o primeiro trimestre de 2021, a inflação registrou alta de quase 20%. Ou seja, os preços dos produtos subiram nesse valor. Já a renda dos brasileiros, medida pela PNAD Contínua do IBGE, subiu menos”.
Segundo os dados levantados pelo professor, o rendimento médio real dos brasileiros avançou de R$ 2.544 (1º trimestre 2021) para R$ 2.880 (1º trimestre 2023) – crescimento de 13%. No mesmo período, a inflação escalou 19,77%.
“A inflação foi muito maior do que o aumento do salário, então as pessoas perderam poder de compra e para conseguir fechar as contas, estão precisando sacar suas reservas”, explica Denis.
Impacto de outros investimentos da poupança
A outra explicação para a retirada de recursos da poupança, passa pela popularização de outros tipos de investimento.
Segundo a B3, nos 12 meses encerrados em maio, a renda fixa atraiu 4 milhões de novos investidores, levando o número total para 15,3 milhões. Já na renda variável, foram cerca de 1 milhão de pessoas a mais, o que levou o total de investidores para 5,3 milhões.
“As pessoas estão migrando para investimentos mais rentáveis. O aumento de informações tem ajudado muito nessa questão também. Diante do cenário da Selic em desaceleração, aliada a essa percepção de que existem outros investimentos tão seguros quanto a poupança, vai haver um aumento dessa a migração”, explica o economista.
Rentabilidade da poupança
A poupança segue com um dos piores desempenhos entre seus pares da renda fixa. Isso acontece mesmo a caderneta tendo registrado em junho sua maior rentabilidade real – ou seja, descontada a inflação – em quase seis anos, de 5,22%.
Pelas regras, a poupança segue com rendimento limitado. Quando a Selic está acima do patamar de 8,5% ao ano, o rendimento é de 0,5% ao mês, mais a variação da taxa referencial (TR). Segundo especialistas, a caderneta não é a melhor opção para fazer o dinheiro render. Os CDB e investimentos atrelados ao CDI, por exemplo, são alternativas mais vantajosas, pois seguem a Selic.
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